terça-feira, 4 de outubro de 2016

Caio Meira

Caio Meira é um poeta nascido em Goiânia em 1966 que vive no Rio de Janeiro desde 1984.
Graduou-se em psicologia e tem pós-graduação em Teoria Literária/Poética (UFRJ, 2002).
Além de textos teóricos e artigos sobre literatura, publicou quatro livros de poesia: No oco da mão (UERJ, 1993), Corpo Solo (Sette Letras, 1998),  Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer (Beco do Azougue, 2003) e Romance-
poemas (Circuito, 2013), que, em 2010, ganhou o prêmio Funarte para conclusão de obras literárias.
Atua também como tradutor da língua francesa, tendo como principais publicações as edições brasileira de dois livros do historiador e crítico literário Tzvetan Todorov: A literatura em Perigo e A beleza salvará o mundo, ambos publicados pela Editora Bertrand do Brasil (2009 e 2010).
Abaixo, quatro poemas recentes de sua autoria, publicados somente em seu blog e sua página do facebook.




não há mais poetas


não há um poeta no brasil, disse o cantor e
violonista, desgostoso com o país, afirmando
ter vergonha de estar aqui nesse momento, o
que meu amigo morto diria da presidenta, o que
meu amigo morto diria do lula, pergunta-se, não
há um poeta nesse momento, para esse momento
não há poetas vivos, não há, a  poesia está
morta, o que o poeta morto diria disso
tudo, da corrupção, dos escândalos, não
há mais poetas no país, talvez tenham fugido,
talvez tenham sido expulsos da nossa
república, talvez até existam aqueles que
se autoproclamam poetas, mas não, não há,
não pode mais haver geração como aquela, na
qual os poetas se infiltravam pelo poder, nas
embaixadas, no funcionalismo público, o pelé
só é poeta quando se cala, os poetas só podem
ser poetas quando se calam, isso é uma
pergunta, só quando se calam, porque as
pessoas estão prontas para ir às ruas vestidas
com a camisa da cbf, para ver se descolam a
volta dos militares, dos anos de chumbo, e os
poetas não podem ter nada a dizer sobre
isso, talvez o cantor esteja apenas nostálgico do
seu amigo, as saudades o fariam sentir vergonha
de ser brasileiro, por isso ele diz que num país
como esse nada mais pode ser criado, nenhuma
nova bossa, e se pretensos poetas dizem coisas,
escrevem, publicam, enchem as prateleiras
de livros de pretensa poesia, não há mais, não
pode mais haver poesia para este momento, afinal
a poesia é aquilo que os homens mandam pras
mulheres, namoradas, mães, filhas, aquela coisa
bonitinha, no dia internacional da mulher, e fica
resolvido o problema da violência contra a mulher,
com posts e palavrinhas bonitinhas, cheias de
flores, viva a mulher, isso sim é coisa de poeta, então
ao contrário do que diz o cantor, somos todos
poetas, ou então ele, o cantor, está certo, não
há poetas hoje, eles não circulam mais pela
república em que vivemos, os sebos estão
cheios de livros  de pretensa poesia, relegados
ao esquecimento,você diz, hoje, “ele é um
poeta” quando alguém diz alguma coisa
totalmente desconectada com aquilo  que
chamam de realidade, coisas sem peso, sonhadoras
e bonitinhas, e quando o vice-presidente se revela
poeta, é aquela coisa constrangedora, afinal é isso
ser poeta, ser totalmente omisso, mas “num escrito
escrito pra mim”, no caso, pra ele, produzir um
“embarquei na tua nau”, no comments please,
então, retomando o enunciado do cantor, não há
um poeta sequer para esse momento de ódio, de
sangue nos olhos, ou talvez os poetas mais cedo
ou mais tarde venham dar sua visão desse momento, os
poetas que não existem, mas quem sabe talvez
nos rondem como espectros, já que expulsos,
ainda outra vez expulsos, postos para fora, não
há mais poetas, exceto, possivelmente, os
espectrais, assim, se não há mais poetas, pode
ser que a poesia continue a ser fantasmagórica, e
surja de surpresa, como fazem os fantasmas, seres
suprarreais, ou infrarreais, de fora, por isso o cantor
talvez não consiga vê-los, pois o espectro da
poesia vai sempre nos rondar, principalmente
quando não esperarmos mais por eles



#


essa gente que desce hoje para a rua


é possível encontrar entre essa gente que desce hoje
para a rua, como desceram por 49 vezes de março
a junho de 64, como desceram empunhando o
estandarte carmim com o leão dourado para
protestar contra o divórcio, contra a reforma
agrária, contra o aborto, contra a ameaça do
comunismo, contra a corrupção dos valores da
família e da propriedade, em defesa da família, em
defesa da propriedade

como nos anos 50 desceram os que achavam que
o getúlio não podia ser candidato, se candidato não
podia ser eleito, se eleito não podia ser empossado,
se empossado era preciso ser impedido de governar

entre essa gente é possível encontrar aqueles que não
são eles mesmo corruptos, aqueles que não pagam
propina, que não fraudam o imposto de renda, que
não estacionam em fila dupla, que não são
funcionários-fantasma, que não se beneficiam de
alguma forma de nepotismo

é possível encontrar entre eles os que não se incomodam
que porteiros e domésticas ascendam socialmente, os
que não se opõem a que gays, lésbicas, trans e inters
tenham direitos civis, os que não tenham obsessão
por armas de fogo

entre essa gente que desce para a rua hoje, nesse dia
chuvoso, podemos encontrar os que não tenham como
ídolos o steve jobs, o bill gates ou o trump, os que não
tenham como paradigma o lobão e o roger, os que
não ignoram que as famílias marinho, frias, mesquita
e civita formam um consórcio criminoso, os que não se
miram no eike batista ou no lemann, os que não
acham que juízes são deuses, os que não tenham
como meta levar os filhos para passear na disney,
os que não se ressentem com o fato de que pobre
agora possa pegar avião

podemos encontrar entre essa gente os que não estão
com sangue nos olhos, os que não veem graça no
danilo gentilli, os que não acham o luciano huck
um cara bacana, os que não repercutem nas redes
sociais os textos do constantino, do azevedo, do
mainardi, os que não são olavetes, os que não
compartilham vídeos e expressões do bolsonaro,
do malafaia, do feliciano, os que não publicam
na sua timeline a reportagem de 1975 do amaral
neto, o repórter, elogiando a ditadura militar

é possível encontrar aqueles que, em 1888, não
se oporiam ao fim da escravidão, e que hoje
não perpetuam a escravidão em suas formas
veladas e escancaradas, aqueles que se chocam
com o fato de a mulher do cunha não ter sido
ainda presa, que se chocam também que
o episódio do helicóptero do pó tenha
desaparecido da mídia sem sofrer qualquer
tipo de investigação

creio ser possível encontrar quem não esteja a
serviço direto ou indireto da bancada da bala,
da bancada do boi, da bancada da bíblia, quem
não queira entregar o controle do país ao
congresso mais conservador e hipócrita da
história do país

enfim, é possível encontrar entre essa gente os
que descem para a rua apenas por amor, não
por ódio, ou por revanchismo, ou por desconsiderar
as regras do jogo

mas é bom levar uma lanterna




#



um poema político


em tese, todo poema é político, ainda que hesite
eternamente entre som e sentido, como dizia
valéry, e que se construa com palavras e não com
ideias, como indicou mallarmé, mas a fala é em
si uma forma de política, e mesmo o primeiro
balbucio infantil pode ser, em certo sentido,
um primeiro passo para o político, para a
habitação da cidade, mas o poema não pode
escapar à política, a se posicionar politicamente,
a ser uma posição da cidade, a uma forma de
ver a cidade, uma forma de habitar a cidade,
mesmo que não traga mais do que rosas e
o azul do céu, mesmo que fale de insetos
ou gaviões, ou de urubus, ou de bem-te-vis, ou
de corujas, ou dos gritos dos bugios, ou da
sexualidade bonobos, um poema pode ser
político mesmo sendo pornográfico, repleto
de cus, bucetas e caralhos, mesmo quando
seja apenas a fotografia, o instante, a descrição
de um casal, numa manhã chuvosa de domingo,
ambos vestidos com uma camiseta verde-e-amarela
do flamengo, uma camiseta comemorativa e não
a camiseta oficial do time, rubro-negra, uma
camiseta feita por marqueteiros, pela nike,
para ser ofertada a celebridades, para captar
recursos para o time, para dar determinada
identidade ao time, para que o time possa
vender bastante essa camiseta, não para que
essa camiseta represente as cores do time, mas
para que o time seja um produto vendável nas
lojas, nos shoppings centers, e esse casal, assim
vestido, possa descer numa manhã de domingo,
com seu cachorrinho, um lulu da pomerânia, ou
spitz alemão anão, e seus dois filhos fofos num
carrinho de bebês para gêmeos, empurrado por
uma babá negra, devidamente uniformizada, ela
também, devidamente paga, devidamente posta
em seu lugar, já que o chefe de família, o marido
vestido com a camisa que deveria ser rubro-negra,
mas que foi produzida pela nike nas cores verde-e-
amarela, esse marido é também vice-presidente
de finanças desse time popular, o flamengo,
além de empregar centenas de pessoas em
seu trabalho, além assinar a carteira de todos
os seus funcionários, exemplarmente, segundo
ele próprio, então essa imagem é a construção
de uma identidade política, é uma forma, exemplar,
segundo o próprio marido, de habitar a cidade
do rio de janeiro, ele de mãos dadas com a
esposa, puxando um lulu da pomerânia, pagando
seus impostos corretamente, vestindo seu tênis
nike, sua camiseta nike verde-e-amarela com
o brasão do flamengo, descendo numa manhã
de domingo para protestar contra a corrupção,
já que ele paga seus impostos, e paga a babá negra
devidamente uniformizada que empurra o carrinho
de bebês, mas que está livre para pedir demissão,
segundo ele, ela está livre nessa manhã de domingo,
em meio ao protesto no qual as demais pessoas
que ali protestam aproveitavam para beber
uma tacinha de champagne,ou também encenar
um enforcamento de um sujeito branco, mas com
o black-face, vestido com um saco de lixo, com uma
corda em torno do pescoço e sendo empunhado
como um estandarte por um outro sujeito, risonho,
vestido com uma camiseta também da nike, mas dessa
vez da cbf, e também enrolado numa bandeira
do brasil, ordem e progresso, podemos ler apesar
de as letras estarem invertidas, esse enforcamento
de um negro indigente então funcionando como
um estandarte, como um abre-alas, uma bandeira
simbólica do protesto para alcançar um país melhor,
no qual os empresários possam continuar a passear
e protestar numa manhã de domingo, de mãos dadas
com a esposa, passeando o lulu da pomerânia e tendo
seus filhos fofos conduzidos por uma babá negra
devidamente paga e uniformizada, livre para deixar
o emprego, livre para estar em meio a esse protesto
com taças de champagne e enforcamento de negros
indigentes, livre, livre, como o marido é livre para
se pronunciar posteriormente, já em seu apartamento,
informando ao mundo que ela é uma funcionária
livre para deixar o emprego, que ele ganha honestamente
a vida, que paga seus impostos e, por isso, é
um cidadão exemplar, e que ela, a babá da foto,
não a outra babá, ou as outras babás, ela que trabalha
apenas no fim-de-semana, e não a babá ou as babás
que trabalham durante a semana, e que devem ser
também devidamente pagas, mas que por alguma
razão não puderam, ela ou elas, comparecer
ao protesto, por estarem livres para ficar em casa,
assim como ele é livre para se defender em seu
perfil do facebook, explicando como é honesto
e cumpridor dos seus deveres, repudiando o
ódio e dizendo que está feliz em poder gerar
empregos, entre estes certamente o da babá
negra que ele levou para o protesto, para que
ele pudesse estar mais confortável para dar a
mão à sua esposa e passear o lulu da pomerânia
sem ter de empurrar seus filhos fofos no
carrinho de bebê para gêmeos, que ele está
feliz por participar da construção de um país
melhor, seguindo o lema de nossa bandeira,
ordem e progresso, feliz por trazer a esperança
de um novo país, e por isso ele se defende
no facebook, curiosamente iniciando o texto
no qual se defende, no qual defende o fato de ter
levado uma babá negra para o protesto, para
não ter de empurrar o carrinho de gêmeos com
seus filhos fofos, e assim poder passear o lulu
da pomerânia e dar a mão à sua esposa, curiosamente
ele inicia seu texto com a expressão si passarán!,
sim passarão!, invertendo o lema da luta contra
o fascismo, invertendo o lema antifascista, os
fascistas não passarão, mas para o empresário
sim, passarão, o protesto passará e nesse país
que ele está ajudando a construir se possa
descer para a rua numa manhã de domingo
vestindo a camisa da nike e seu tênis nike,
de mãos dadas com a esposa, passeando seu
lulu da pomerânia, com os filhos fofos sendo
empurrados num carrinho de bebê para gêmeos
por uma babá negra devidamente uniformizada



#


evidências


que peso pode ter uma palavra, qualquer
palavra, dentro de um poema, e que peso
pode ter essa palavra numa matéria jornalística,
ou econômica, ou política numa revista
semanal norte-americana pedindo ou
sugerindo a renúncia da presidente, fora,
fora, fim, término, pois supostamente
devemos acreditar em jornalistas e em
economistas, e em jornalistas-economistas,
em juízes e procuradores, em advogados,
em banqueiros, nos donos da mídia
do país, das revistas e canais de tv,
divididos, mas juntos, suas palavras propõem
nova divisão, novo arranjo produtivo,
nova repartição dos bens públicos, pois
dividimos, ao que parece, para
escolher de que lado ficamos, e também
para escolher de que lado não queremos
ficar, aplicando assim o método da
divisão, dividimos a cor da pele, a cor
da camisa, qual o dia da passeata que
devemos ir, o lado da cama que devemos
dormir, se mijamos em pé ou sentados,
dividimos para escolher a melhor porção,
a melhor fatia, fatiamos, retalhamos
para apontar o filho bastardo, o que
não tem direito a ter relógio de ouro,
o que não pode ter casa de praia, quem
pode e quem não pode dar palestra
de duzentos mil reais, quem pode
perambular bêbado pelo leblon, quem
pode e quem não pode cheirar cocaína,
você até pode tirar um repórter de dentro
do estadão, mas não pode tirar o estadão
de dentro do repórter, quem é pobre
deve ter alma de pobre e morar em
maricá, quem é filho de general pode
ter apartamento em paris, pode ter
amante teúda e manteúda em paris, pode
ter filha recebendo salário em gabinete
de deputado sem ir trabalhar, e se
você for jornalista de o globo, do estadão, da
folha, você terá de retirar alguns nomes da matéria,
se quiser eu tiro, você disse, e talvez
você tenha recebido um email vindo de
cima dizendo o que você pode e o que
não pode falar, que listas e que falas
você pode e mesmo deve dramatizar
na edição da noite, e para continuar do
lado certo da divisão você terá de
aprender como e quando se escandalizar,
você não poderá se escandalizar com
tudo, mas só com certas coisas, e então
nós, por nossa vez, aprendemos a
identificar essas evidências quando você
compartilha, prefere compartilhar a matéria
da the economist e não a da bbc, e
quando você examinar a crise na universidade
pública será, deverá ser sob a ótica de
um empresário, um redator, uma chefia, e
assim nos dividimos e nos pulverizamos
e nos chocamos com coisas tão diversas,
e então eu me lembro quando você me disse
que a propriedade privada é a mola mestra
da sociedade, o direito à propriedade é
o fundamento das relações sociais, e eu
fiquei tão chocado com essa fala, com
essa divisão que se interpunha entre dois
amigos, e tantos posts dizem que não se
deve romper amizades em função de
divergências políticas, e eu até acredito
nisso, mas é tão difícil enxergá-lo de
onde estou do outro lado desse abismo,
e as evidências são assim pistas que a
gente segue, como policiais e jornalistas
seguem pistas, nós também seguimos os
rastros dos jornalistas e dos policiais, e
dos juízes que também dividem, escolhem
lados, separam o joio do trigo, encontram
agulhas em palheiros, mas não veem as
raposas se aproximando do galinheiro

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Laura Assis

Laura Assis é uma poeta nascida em Juiz de Fora (MG) em 1985. É graduada em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFJF. Atualmente cursa doutorado em Literatura na PUC-Rio. 
Tem poemas, contos, artigos e resenhas publicados em diversas revistas, jornais e sites. 
Em 2011 fundou a Aquela Editora, selo independente por meio do qual publicou os livros de estreia de poetas da cena de Juiz de Fora. 
Em 2013 ficou em primeiro lugar no V Prêmio Paulo Britto de Prosa & Poesia. Participou da Antologia de Poesia Plástico Bolha (Organograma, 2014), da exposição Poesia Agora (Museu da Língua Portuguesa, 2015) e da 1ª Bienal do Livro de Juiz de Fora (2016). Faz parte da equipe de organização do Eco Performances Poéticas. É autora de Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014) e Todo poema é a história de uma perda (Edições Macondo, 2016).
Abaixo uma seleta com poemas seus já publicados e um inédito



Oberkampf

Nossos pais morreram
no mesmo acidente estúpido:
vimos o sangue,
vimos os corpos.
E você me fez prometer
que jamais
te deixaria

Morávamos
no mesmo
prédio,
no mesmo
andar.
Sua porta era colada
à minha porta e
entrar no seu quarto
ou no meu
era igual,
mas ao contrário.

O metrô passava a cada
três ou quatro
minutos
a estação era a cozinha
da sua casa,
parecia Oberkampf
mas com menos
azulejos amarelos.

Sua voz ainda era
uma força da natureza
que me alcançava
na sinestesia
dos sonhos.

E dos sonhos
acordei
e nunca mais
escrevi sobre cadernos
folhas
em branco
desertos
palavras escondidas
atrás de
palavras escondidas

E as coisas passaram
a ser como antes eram:
as coisas,
só as coisas

pouco importa a ênfase
pouco importa a verdade

o que importa é a vida
(e a vida
não cabe).

[de Depois de rasgar os mapas, 2014]


#


Dia

Ninguém sabe o que virá na trama estreita
da tarde que se abre livre sob teus passos,
mas neste espaço onde tudo muda,
e ainda assim nada acontece,
a comunicação é impossível
e isso é o que me faz querer tornar possível
o mundo que vejo em você.

Longe daqui eu seria outra pessoa,
acordaria cedo, falaria sobre o infinito,
desacreditaria de desastres e livros
ou escreveria poemas
sobre ter o coração no lugar certo.

Mas talvez explicando assim
você pare de me olhar
como quem não espera nada
além de um acidente:
antes das casas, casamentos e filhos,
depois das mortes, das visitas, dos confrontos
 a violência da sua presença
girando todos os dias
na órbita exata
das minhas escolhas.

[de Todo poema é a história de uma perda, 2016]


#


Ruína

Eu sei, éramos indelicados
com quem
acreditava na vida:
vinte anos e as paredes
impregnadas
de espanto
e desprezo
pela revolução.

Escuta, não sobrou nada,
anulamos todos os sinais,
nossa presença:
um ponto
sob o radar, e tudo
se perdeu por lá
com a certeza de um
incêndio.

Espero que agora
seus olhos
ofusquem
as luzes minerais
do Boulevard Saint-Michel.

Espero que você
esqueça
tudo aquilo que se desfez
na sombra clara do futuro
que não soubemos adivinhar.


[inédito]

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Elizabeth Gomes


Elizabeth Gomes, Beth, é uma poeta, agente e agitadora cultural nascida em 1993, no Rio de Janeiro.
É editora de poesia do Site da Baixada, idealizadora e produtora do Sarau RUA (que acontece mensalmente na cidade de Nilópolis) e uma das idealizadoras da Feira Mais Livro, colaboradora do Sarau do Vulcão, além de realizar a intervenção poética itinerante Poema Fiado.
Cursa a graduação em Museologia pela UNIRIO e desde 2013 trabalha com curadoria de artes plásticas e patrimônio histórico-cultural.
Adepta e amante de livretos artesanais, começou em junho de 2015 uma série chamada Datilografia em Conta-gotas.
A escrita que foge por seus dedos derrama no papel o amor que sente pelas coisas do mundo e é em meio ao caos, principalmente, que acha suas soluções.
Os poemas a seguir são inéditos.



três (2/36)

Eu poderia largar o cigarro
e em passos largos
me largar de cabeça
no teu peito

Eu poderia
em vilas gaivotas
acidentadas
ou portos brancos,
velhos
a(r)mados
fodidos
e usados
Abrir a janela ao lado
pro vidro corrente de ar
e quebrar com um só impulso
no pulso-coração
o cunho da estrada
voando baixo
nas linhas brancas
ou me arrastando
pelas sujas de bordô e carmim

Eu poderia até mesmo
te cobrir
com meu já empoeirado
manto carmesim

Poderia
em toda via
secar o viável viés
de naufragar o desejo
de morar aos teus pés

Poderia quiçá
no todo do ódio
que te corrompe o sutil codinome
Morrer de desejo
de pavor
de terror
na ira da angústia
de suprir tua fome

Quebrar os limites
e também a gaiola
sufocar com as correntes quebradas
o todo do mal que te apetece

Eu poderia tudo isso

Se com sorte
algum dia
com teu andar-vôo
nas minhas linhas-letras-tortas-poesia

Você também me pudesse.



#




[das epifanias na Praia do Pontal - 2]

Poupa essa minha voz
Cansada e rouca
Que agora me alimento
De céu
E me basto
Na ausência de tudo
Que é seu

Te entrego um poema de despedida
E te aconselho
A ter tato,
Bons sonhos,
E um caminho fácil e longo
Ao seguir pela vida

Aproveita e conhece na estrada
Alguém muito melhor do que eu
Tira o véu vermelho
Que tampa teu rosto
Se encontra na cama
E vê se agora finalmente ama
O primeiro que passa
E, tão ao contrário de mim,
For teu oposto

Mas vê se não vive
De dor e remédio
Que o tédio
Dos dias sem graça
Que nos abraçaram com força
Eu desejo aqui do fundo
Que não encontre
No calor dos braços
De qualquer outra moça

Vive de amor,
Poesia,
E calor
Com a maestria
Do vento
que teu andar torto
em sintonia
com a escola de samba
dos meus batimentos
pode trazer
a qualquer outra
que tenha a satisfação
de dançar com você

Devolvo teu livro
teu crivo
a foto guardada
e aquele velho isqueiro
na certeza
de que se o fogo dele
ainda acendesse
queimaria os papéis
e teu cheiro

Em vez disso te faço perfume
e o frasco dispenso
em qualquer ser vivo
além de mim
Me altero na escrita
do gume das palavras
que declaram
no teu primeiro e último poema
o suor aguardado do fim

E no conto
contido
que travesti de poema
de linhas tortas
e pouca métrica
Baseada somente
no pouco de mim
que ainda sei
Eu inflamo um adeus
que nunca te dei

Quatro poemas inéditos de Carla Diacov


Carla Diacov é uma poeta nascida em São Bernardo do Campo, SP, Brasil, em 1975. Formada em Teatro, estreou em livro, além da participação em algumas antologias, com Amanhã Alguém Morre no Samba, (Douda Correria, Portugal, 2015). Tem participação em diversas revistas on-line e impressas. Se atraca com as artes plásticas o tempo inteiro, movimento que a serve a construir em conjunto de matérias ou que a traz de volta às letras somando algo da extração da borracha. Gosta de abordar o sangue. Tende a ser serial. Em Agosto de 2016, publicou A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições). Em 22 de Setembro vê lançado o primeiro volume de Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, Portugal, 2016).
Os quatro poemas abaixo são inéditos e foram retirados do livro Ninguém vai Poder Dizer que Eu Não Disse I,seu terceiro livro, que será lançado em 22 de Setembro, no Bar Irreal, em Lisboa, Portugal. É o primeiro volume da série com pequenos poemas, ainda que a maioria no formato prosa. Testados/lançados primeiramente aqui e ali, em “salas” da internet. Em suas palavras, o livro faz parte de uma "série que, no caminho que faz, em sua essência, gritam meu íntimo, incluindo nela fragmentos do episódio em que fui brutalmente apaixonada e então brutalmente agredida pelo acidental e efêmero amasiado (o cavalo. o falso cego. cavalo de bengala?). Mas não vamos ofender tão lindo ungulado. Então posso dizer que poeticamente temos aqui um livro do cotidiano, pequeníssimos manifestos, axiomas, enunciações de várias fases (dolorosas, bonitas, pulcras, estragadas, desempoadas) entre hematomas e sorrisos apaixonados, claro, se valendo do lirismo para melhor ser."






retalha meu couro: tentamos prender o penhasco assim pinçando com os dedos. VOCÊ ME MORDE LONGE DEMAIS. ESTOU BEM ESTOU BEM. retalha meu couro. todo dia. tentamos pender o penhasco. penhorar. vender. mas gememos e logo não e então pinçar um albatroz pinçar uma das costelas de um barco morto na areia imensamente negra.


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fico repousando a cara sobre o teu perfil. fico repousando a carla fico repousando a malha das coisas que quero escrever e não escrevo nunca porque a maré porque o vendedor de espelhos porque eu preciso porque eu pretendo e fico. uma tarde e meia. é o tempo que tenho desde que lancei meu corpo ao caldo disso. aguarda um jardim de abóboras o lírico chafariz enquanto eu te gosto e tanto.


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UM FILME DESSES NÃO SE VÊ EM QUALQUER TEMPO. aponta uma porta de papel. outra de papel de arroz. numa delas um desenho: CADA SEGUNDO UM RISCO QUE CORRO DE NÃO FICAR OUTRA VEZ CORAÇÃO. um filme desses não se vê em qualquer fôrma. QUE DESENHO PORNOGRÁFICO: aponta uma porta de pano molhado: O PASSARINHO QUE TINHA DOIS CORAÇÕES.


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na escavação para que a expansão do metrô da cidade de são paulo
sob o sol de janeiro o ar poeirento penetra
a palavra antes do pensamento
alguém grita NAPOLEÔNICO outro alguém grita BICHA DIVA
outro outro alguém grita ALGUÉM ESTÁ NO MEIO DE NÓS ENVOLTO ENTRE NÓS
outro outro outro alguém sussurra ELEVAI OS PENSAMENTOS E PINCÉIS
a linha é pink e fará nó com a linha glitteriosa
NAPOLEÔNICO ENVOLTO ENTRE NÓS ESCALDA MÃE ESCALDA PÉS
mais um outro SÊ! SÊ E SÊ!
o que sussurra ESCAVA PINCELA CATALOGA CALA VÁ-TE
o primeiro NÃO PODEMOS
na escavação para que a expansão do metrô da cidade de são paulo
sob o sol de janeiro o ar poeirento penetra
a salvação antes do pensamento
NÃO PODEMOS ESVOAÇAR O DITO


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Um conto de Douglas Zílio Coutinho


Douglas Zílio Coutinho é um contista, poeta e romancista nascido no ano de 1992 em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.
É fundador do Sarau Marginália e editor do blog O canto do Pássaro Azul.
Publicou a coletânea de contos Notas Periféricas (Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2016), sua primeira publicação em livro.




O segundo corte
Cada um engendra o seu próprio inimigo.”
De l’inconvenient d’être né, Emil Cioran.

O murro o atinge pela direita, bruto, potente e certeiro como um trem encontrando o corpo de alguém profundamente desgraçado, estático sobre os trilhos antigos que rasgam dois bairros empobrecidos de uma cidade sem nome. Não chore, não chore agora!, ele pensa repetidas vezes, enquanto força os pequeninos e trêmulos beiços, a fim de vedar a boca evitando que qualquer grunhido escapasse num gesto de sofrimento incontido. Com as pálpebras fechadas forçosamente, não consegue reparar quando a mão pequena, entretanto calejada, ergue-se mais uma vez à procura de força, impulso; ainda assim, pressente a sua aproximação, num breve instante antes de ter o seu pequeno crânio secamente ferido. Engula esse choro, sabe como ele se irrita mais quando você chora, sabe disso!. Dos olhos tão marejados, nenhuma lágrima caiu, escorrendo pelas bochechas para pingar no contorno do queixo; assim como nenhum berro fugiu pela sua boca, num querer desesperado por cessar as pancadas suportadas. Imóvel como uma estátua de gesso – um querubim, quiçá –, o pequeno permaneceu sentado.
Largue o garoto, miserável! Quer matá-lo?” consegue ouvir, antes de ter o cabelo amassado do lado direito da cabeça, o mesmo lado em que o primeiro golpe fora desferido. É minha mãe!, ele reconhece antes de ser arrancado desta terra sem deus para ser cuspido numa penumbra incompreensível em que a sanidade perambula pelos ares sem encontrar repouso. “Não! Não faça isso, eu imploro!”. A atribulada cabeça é lançada uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove vezes contra o azulejo branco com agradáveis detalhes floridos de cor azulada e violeta. O espanto o alcança antes da dor, que, não tão lenta, o rasga por inteiro.
Incapaz de resistir, ele desmaia.
Gritos. Desesperados gritos. Voltando a si, o menino reconhece a voz: é a mesma de antes, é sua mãe, aquela que padece, contra uma parede branca, pelas mãos daquele que a desposou e a subjugou através de um casamento diante dos homens e diante de um deus emudecido. Deixará que morra o ventre que te gerou? Deixará que padeça aquela que, pela sua salvação, arriscou a própria existência? É o que se pergunta incontáveis vezes, talvez, confiando que a repetição seja capaz de cingir de força as pernas finas e bambas, e encher de coragem o peito – que era pouco mais que um roto tecido cobrindo um amontoado de ossos.
Se os berros animalescos daquele homem – que, podendo esporrá-lo no ralo, desejou plantá-lo no vão das coxas de uma mulher – não tivessem silenciado os gritos maternais, talvez a sua ousadia não fosse abalada. Ele a matou? A minha mãe morreu?! Morta para me salvar? Põe-se de pé com celeridade, derrubando a cadeira que, chocando-se contra o chão, faz um grande estardalhaço. Alcançando o puxador de uma gaveta, busca uma faca de cortar carne (não será carne o que cortarei?) e, mesmo com os joelhos vacilantes, penetra no estreito corredor sem iluminação.
O homem, que também era besta-fera, abriu a mão que apertava o pescoço da mulher de boca aberta e olhos esbugalhados, e encarou o pequenino. A diminuta mão sua, mas, ao invés de afrouxar a palma e os dedos, o cabo é apertado com mais força, desespero. “Largue a faca, moleque!” seu pai esbraveja, “comeu merda, por acaso?”. Comi? As coisas estão confusas, o crânio ainda dói, as mãos molhadas tremem, os joelhos fraquejam. Ele não cede espaço, apesar de tudo; antes, olhando aquela que o amou e o embalou com a coberta em noites gélidas, cantarolou belíssimas canções em madrugadas tempestivas, saltou rumo ao corpo roliço e atarracado daquele que, se engalfinhando vorazmente, terminou por guinchar de dor.
Descobre que não há espaço para a culpa. Somente um ódio frio, incapaz de incendiá-lo, agindo, entretanto, como um forte vento empurrando uma inútil folha ao relento. Encara-o forçar a mão contra o abdômen rasgado donde o sangue escorre. O mesmo sangue que o meu! “O que fez? Esfaqueou o seu próprio pai? Que diabo é você?” o gigante vencido vocifera, enquanto se arrasta para o quarto através de passos vagarosos e pesados. “O que fez?! Está louco?!” outro grito o questiona, o grito feminino de sua mãe que, alisando o próprio pescoço avermelhado por causa do sufocamento, lança rumo aos olhos de sua cria um olhar envenenado de desprezo, repugnância. Estático, o pequeno não entende quando ela se levanta e corre para a figura ensanguentada sobre a cama, vertendo mil beijos na boca que amaldiçoava os céus e a terra. Por que ela o escolheu? Que fiz para que, dentre os dois, fosse eu o rejeitado?, perguntou-se por anos, tomando cuidado para que os seus pensamentos, desde então confusos, não fossem ouvidos e renegados por qualquer outra criatura.
Quando o corpo flagelado de sua mãe se ergueu do chão e passou pelos umbrais da porta do quarto do casal, debulhando-se sobre o leito, o fio que a ligava ao filho fora rompido brutalmente. No exato milésimo e de uma única vez como num corte. O corte que, antes do fio que unia o seu coração ao dela, fincava o seu umbigo à caverna que o vomitara numa noite de inverno; o cordão que fora rompido, ao ser expulso do casulo que o protegia de qualquer sofrimento, decepção, desespero. Decepado o segundo e último laço, a pequena criança se sente só, profundamente só, e então chora.
A faca ensanguentada cai tilintando ao tocar o piso e um profundo silêncio invade todos os cômodos.
Não há mais o que dizer, apenas lamentar.